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Fotografia Ideológica e a Dinastia Kim

By Fernando Collaço , In , , ,



A crescente tensão gerada pela retórica belicista da Coreia do Norte aos Estados Unidos e países vizinhos tem colocado toda a península local como o centro das atenções mundiais. As imagens de Kim Jong-Un, atual líder do governo e Comandante Supremo do Exército Popular, as quais chegam até nós oferecidas como divulgação oficial do governo norte-coreano, apresentam um caráter propagandista acentuado e despertam nosso interesse acerca do uso da fotografia como propaganda ideológica. 

Essa forma de propaganda tem como foco a transmissão de um conjunto de ideias e pensamentos individuais ou coletivos que podem ter caráter político, econômico e social. O conteúdo trabalhado consiste em uma reinterpretação da realidade sob o ponto de vista favorável às ideias que pretendem ser vendidas. Dentre suas principais características estão: a universalização de interesses específicos de um grupo e a supervalorização de valores ou momentos positivos que se associam ao mesmo. As mensagens que são produzidas, independentemente das mídias utilizadas, apresentam procedimentos específico que auxiliam no objetivo da manipulação da opinião pública e na condução de um comportamento social e que podem passar despercebidas.

Propagandas norte-americanas para a I Guerra Mundial (1914/1918)






Observando alguns fatos da História mundial, a propaganda ideológica com uso de fotografia em específico teve um uso constante e fundamental com a figura do líder nazista Adolf Hitler e o Ministro da Propaganda Nazista Joseph Goebbels, os quais souberam trabalhar de maneira primorosa toda a campanha midiática em torno do regime nazista, de forma a exaltar seu líder e angariar entusiastas.

Nas fotografias alemãs desse período, nota-se a figura de Adolf Hitler quase sempre registrado de baixo para cima, com uma leve inclinação no eixo do olhar, a qual confere ao à figura retratada uma leve aura de superioridade, a qual é complementada pelo olhar voltado para o horizonte como forma de simbolizar seu caráter visionário e/ou progressista. No conjunto dos materiais, temos ainda várias imagens do líder rodeado de populares e oficiais que o exaltam, além de situações nas quais Hitler era retratado junto à novas tecnologias da época, associando sua imagem às facilidades que elas traziam para suas vidas e sublinhando a suposta preocupação do governante com o progresso da nação.

 
Hitler observa o projeto de carro popular

Retrato de Hitler, olhar no horizonte e câmera inclinada


Hitler cercado por entusiastas do regime nazista
Quando observamos o material da Dinastia Kim, ao qual temos acesso por meio da Internet e impressos, um dos fatos que mais nos chama a atenção é a forma como seus sucessivos líderes tem as imagens trabalhadas de maneira similar e lançam mão de técnicas que ajudam a obter efeitos de exaltação de sua figura e de construção de uma imagem de proximidade para com o povo. O ditador Kim Il-Sung, avô do atual líder, já demonstrava preocupação com as imagens do regime que transmitia ao povo coreano por intermédio da fotografia e a continuidade de seu projeto imagético foi auxiliado pelo advento de novas tecnologias e a facilidade de disseminação de imagens. Com seu filho, Kim Jong-Il, falecido em dezembro de 2011, o regime comunista se apropriou de forma intensa do aparato ideológico e solidificou o processo de comunicação visual, o qual agora é adotado também por seu filho e sucessor Kim Jong-Un.


Kim Il-Sung
Kim Jong-Il
Kim Jong-Un
Como visto, as imagens trabalham o retrato realizado com um registro de baixo para cima exaltando o líder local que ocupa um palanque e tem os olhos voltados ao horizonte. Considerando o material, podemos apontar algumas técnicas recorrentes nessa categoria de fotografia e ainda semelhanças entre as duas últimas gerações: em muitas fotos, os líderes locais aparecem cercados de populares, geralmente mulheres, nas ruas da cidade, sempre com muita comoção e uma exaltação por vezes desmedida. Há ainda a predominância de fotografias que registram o exército em sua formação principal e o líder, pai ou o filho, saudando esse corpo bélico. Nesse caso, um par de fotografias nos chama a atenção pelo uso do mesmo enquadramento e de alguns elementos para a composição em momentos muito distintos da História.

Kim Jong-Il saudando o exército

Kim Jong-Un saudando o exército



Kim Jong-Il e entusiastas do regime
Kim Jong-Un e entusiastas do regime
 Temos ainda os líderes observando e fazendo uso de tecnologias de comunicação, fato que promove a associação de suas imagens aos ideias do progresso e bem-estar dos cidadãos, além de imagens que apresentam os retratados com o olhar fixo no horizonte, situações e poses claramente produzidas para um enquadramento específico, uma assepsia da cidade que aparece vazia e limpa e também situações banais como a visita dos líderes e seu olhar curioso sobre os produtos locais.

Kim Jong-Il visita orgão público
Kim Jong-Un visita orgão público
Kim Jong-Il com 04 militares e o olhar no horizonte
Kim Jong-Un com 04 militares e o olhar no horizonte
Kim Jong-Il observa uma loja de botas plásticas
Kim Jong-Un observa uma loja de botas plásticas
Táticas de propaganda ideológica não são exclusividade dos líderes acima e muito menos pretendemos associar os dois regimes apresentados. Queremos, acima de tudo, apontar para as questões que envolvem um olhar atento às imagens que compõem os discursos ideológicos que nos cercam cotidianamente, de forma a atentarmos para a forma pela qual nossos sentidos são explorados e sensibilizados através de diferentes meios e mensagens. Saber reconhecer as grandes manipulações de olhares, enquadramentos e situações é permanecer um passo à frente de um discurso alienante e e poder dissociar de forma crítica o conteúdo da forma.

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