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Jornal impresso e a Web: um não funciona com o outro?

By Gabriel Ishida , In

Quero deixar aqui meus comentários sobre essa reportagem, indicada pelo meu amigo midiálogo Mateus Pavan.

A íntegra está aqui. É bem comprida, mas quem tiver tempo, leia tudo porque é muito interessante.

Vou fazer de um jeito bem funcional: copiarei as partes que eu quero comentar e colocarei o respectivo comentário abaixo.

Para começar, a reportagem é uma troca de cartas entre Steven Johnson, um dos grandes téoricos da atualidade sobre cibercultura (cujo um dos seus livros eu comentei por um bom período aqui no blog - Cultura da Interface) e Paul Starr, jornalista ganhador do Pulitzer. Eles discutem o futuro do jornalismo impresso e na Web. Antes de mais nada, quero deixar claro que tenho uma grande afinidade com as idéias de Johnson e isso talvez ofusque algumas análises que faço, por isso julguem tudo isso como minha opinião dos fatos.

"Acho que existem boas razões para pensar que o sistema de notícias que está se desenvolvendo on-line será melhor que o modelo dos jornais com o qual convivemos nos últimos cem anos.

Uma maneira de enxergar essa transformação é pensar na mídia como um ecossistema.

Na maneira como ela circula a informação, a mídia de hoje é, de fato, muito mais próxima de um ecossistema do que era o velho modelo industrial e centralizado da mídia de massas." Linhas 14-18 - primeira carta - Johnson

Uma visão interessante de Johnson sobre a nova forma da informação. E acho que é assim mesmo: a informação circula entre nós como se fosse ar. E isso tem decorrência tanto na abundância ao nosso redor quanto na forma de produzirmos. Muito mais acessível produzirmos nossa própria informação do que 20 anos atrás. E a forma de as circular é também bem mais facilitada.

"A democracia depende da cobertura noticiosa independente de todos os níveis de governo, especialmente os níveis que respondem diretamente aos eleitores. As pesquisas em ciências sociais mostram que, onde a mídia noticiosa é fraca, a corrupção está muito mais presente. Sem uma imprensa independente capaz de cobrar responsabilidade dos governos locais e estaduais, o projeto básico de uma democracia federal fica comprometido." Linhas 28-32 - segunda carta - Starr

"Embora seja inquestionável que a internet oferece uma diversidade de opinião e acesso a novas fontes, ela não vem conservando o jornalismo profissional generalista em seus níveis anteriores."
Linhas 57-58 - segunda carta - Starr

Na realidade, achei Paul Starr bem conservador em diversos pontos. Conservador, mas com argumentos. Alguns muito válidos, como da primeira afirmação. Realmente, ter uma imprensa forte ajuda no processo democrático e impõe transparência no mundo da informação. E a contribuição do jornalismo impresso ficará marcado para sempre na sociedade, isso sem dúvidas. Mas dizer que a internet não coloca credibilidade na informação, é desprezar trabalho de blogueiros de extrema qualidade, como Hewitt e Sullivan, além de outros portais de notícias. Acho que a questão, para Starr, é mais o canal Web em si do que a fonte. A fonte é confiável como qualquer portal de notícias. Mas pelo simples fato de que "todo mundo pode postar notícia" é que Starr julga a falta de credibilidade das notícias. Acho que o caminho não é bem aí.

"Amadores locais vão vasculhar documentos públicos em busca de detalhes reveladores, e pais presentes às audiências escreverão em blogs sobre o impacto sobre escolas específicas à sombra do projeto. E sites como o Outside.in vão circular as observações deles a leitores que vivem nessa zona escolar, enquanto novas organizações beneficentes como a Spot.us vão financiar artigos investigativos sobre o histórico passado das empresas envolvidas na construção.

Se forem espertos, jornais de Nova York como o "Times" e o "Post" vão aproveitar essa cobertura, compartilhá-la com seus leitores, usá-la para vender anúncios locais e às vezes colocar um de seus repórteres treinados para desenvolver artigos novos.

Estes últimos, por sua vez, acrescentarão valor enorme à cadeia de informação, e o ciclo inteiro recomeçará" Linhas 36-46 - terceira carta - Johnson

Johnson explicou um exemplo de como é o sistema de informação (notícias) na Web. Um blog faz um recorte, outro faz de outro, mas tudo sob um fato específico. Isso que é o grande ecossistema da informação: ter diversas naturezas e visões sobre o mesmo assunto. E a mídia impressa não faz isso, não sozinha, como a Web faz.

"Sites como o seu, que tiram notícias, comentários --e lucros-- da web dependem inteiramente de que outros paguem pelo trabalho original de reportagem. Alguns blogueiros podem dar furos jornalísticos ocasionais, mas fazer de conta que eles possuem as capacidades de um grande jornal metropolitano é enganoso.

Um site que tira notícias de outros lugares pode ampliar o público do material que coleta, mas, se existe algum efeito de engajar o público, isso acontece porque outros estão fazendo o trabalho. Engajar o público requer que se identifiquem os acontecimentos e apontem seu sentido, e não apenas que se reproduzam informações (e desinformações) isoladas." Linhas 30-37 - quarta carta - Starr

Lógico que blogueiros não possuem as características de um grande jornal nacional. Mas nem por isso pode desmerece-los como fonte de informação confiável. Toda uma reputação está anexada nessas fontes. E está certíssimo que quem faz o trabalho de engajamento são os outros, porque é assim que a Web atua: todos fazem o conteúdo, é o coletivo. Nada é centralizado, tanto é que modelos como Wikipedia são fontes valiosíssimas enquanto informação. Como diz o teórico considerado o futurólogo da Web, Jean Paul Jacob, a sabedoria do coletivo é muito maior e mais valioso do que o individual.

Recomendo a leitura inteira da reportagem. Esses são apenas alguns pontos que queria ter postado. Tem vários outros, mas esses são os mais importantes.

1 comentários:

barra/.ponto disse...

na relação entre o jornalismo da web e o jornalismo da imprensa do século 20, há uma imaginação distinta da confiabilidade/credibilidade (accountability) de cada modelo.
e é essencial traduzir a natureza dessa mudança: o modelo do século 20 segue uma tradição liberal de empreendedorismo e mercado, as empresas de qualidade são preservadas/sustentadas pela escolha econômica do consumidor (ou é o que dizem). o modelo da web tenta reproduzir este modelo, pregando o livre mercado competitivo das iniciativas privadas e pulverizadas.
eventualmente, a história pode acabar se repetindo: uma ilusão do darwinismo de mercado, uma aliança obscura entre a mercantilidade e a função social (que nos rende jornais sensacionalistas, alinhados politicamente por motivos econômicos, etc). ambos os modelos podem fugir disso, a natureza tecnológica do modelo digital facilitando pela menor demanda de investimentos. mas como? comunidades, por exemplo, são um exemplo de resistência: as redes de confiança nela não dependem da ideologia do mercado, a sustentação do modelo depende de outros modos de retorno, econômicos ou não.
falta, claro, imaginar novos modelos, ainda mais originais.

26 de maio de 2009 00:45

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